“A produção e o consumo de alimentos orgânicos se dão, no meu entendimento, por duas razões básicas: aumento do que chamamos de consciência ecológica e desejo de se consumir alimentos mais saudáveis.”

Orgânicos sim; por que não?

Os alimentos orgânicos estão na minha vida há pouco tempo. Começaram a fazer parte da minha alimentação há cerca de cinco, seis anos, principalmente graças ao incentivo e informações passadas pela chef carioca Teresa Corção, criadora do Instituto Maniva e dos Ecochefs, e da jornalista Juliana Dias, estudiosa e pesquisadora de gastronomia e, entre outras coisas, criadora do curso de pós-graduação em jornalismo gastronômico da Facha (Faculdades Hélio Alonso), do Rio de Janeiro.

Como pesquiso, estudo e escrevo sobre comida, alimentação, gastronomia, essas coisas, há pelo menos 15 anos, leio muita coisa sobre o assunto – livros, artigos, reportagens, além de conversar muito sobre o tema, assistir e proferir palestras, participar de seminários e congressos.

E foi por intermédio dessas leituras, conversas e eventos que começou o meu “namoro” com a alimentação e a produção de orgânicos e produtos agroecológicos.

Cada vez mais, em casa, estou procurando basear a minha alimentação em produtos orgânicos: verduras, legumes, frutas, doces, geleias, conservas, arroz, feijão, farinha de milho, granola, biscoitos, palmito e vai por aí.

E faço isso, principalmente por algumas razões. Primeiro porque o alimento orgânico, de acordo com o meu paladar, é mais saboroso. Segundo porque, no meu modo de ver as coisas, a produção orgânica é mais sustentável do que a convencional e não provoca danos ao meio ambiente, por não utilizar agrotóxicos e fertilizantes sintéticos. Terceiro para poder contribuir na criação de um mercado orgânico mais abrangente, ao qual um maior número de pessoas possa ter acesso.

Antiorgânicos

Mas se você fizer uma pesquisa na Internet em busca de “argumentos antiorgânicos” vai descobrir coisas do tipo: “a qualidade do alimento orgânico é igual à do alimento convencional”, “o cultivo de orgânicos: é uma ameaça para as florestas tropicais, pois a área necessária para o cultivo é maior do que na agricultura convencional”, “comida orgânica não é mais nutritiva”, “orgânicos podem ser mais prejudiciais que alimentos com agrotóxicos”, “agricultura orgânica não é necessariamente sustentável; produção é menor, logo a área ocupada é maior”, “vegetais orgânicos têm muito mais elementos cancerígenos do que os cultivados com agrotóxicos”, “orgânico é apenas marketing”. Tudo isso com “base científica”.

Acreditar simplesmente nesses argumentos significa acreditar também que os agrotóxicos fazem muito bem à saúde.

Assim como na política e em outras coisas da vida, a ciência sempre teve e continua tendo lado. E o meu lado eu já escolhi.

O mundo caminha para um consumo cada vez maior de alimento orgânico/agroecológico. Isso é facilmente comprovado com a participação de milhares e milhares de agricultores orgânicos espalhados pelo mundo e o gradual aumento do consumo.

Não tenho a ilusão de que, a curto ou médio prazo, a agricultura orgânica substituirá a agricultura convencional, pois há muitos interesses, principalmente econômicos, em jogo. Mas me anima a constatação de que, em sete anos (2012/2018) triplicou o número de produtores orgânicos cadastrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), de 5.934 para 17.730. E esse número continua crescendo: em novembro deste ano havia 19.868 produtores de orgânicos cadastrados. Além disso, segundo o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, 75% são de agricultores familiares. Como sou um defensor fervoroso da agricultura familiar, uma coisa puxa a outra.

A produção e o consumo de alimentos orgânicos se dão, no meu entendimento, por duas razões básicas: aumento do que chamamos de consciência ecológica e desejo de se consumir alimentos mais saudáveis.

No Brasil caminha-se ainda lentamente (mas caminha-se) na produção e consumo do alimento orgânico, o que faz com que os produtos ainda tenham um alto custo, fora do alcance da maioria da população. Mas o fato é que a produção vem aumentando ano a ano e os preços, de maneira geral, diminuindo. O consumo de alimentos orgânicos no Brasil aumentou 20% nos últimos dois anos, segundo pesquisa divulgada pela Organis.

Cooperativas agrícolas dedicadas unicamente à produção orgânica espalham-se por todas as regiões do Brasil, mostrando que os agricultores familiares reconhecem na agroecologia e na produção orgânica uma maneira de comercializar alimentos com valor agregado.

E assim, vamos caminhando.

Chico Junior
Jornalista, escritor, autor dos livros “Roteiros do Sabor Brasileiro”, “Roteiros do Sabor do Estado do Rio de Janeiro” e “Na boca do estômago – Uma viagem ao prazer de cozinhar e comer”
Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus respectivos autores e não refletem necessariamente a opinião da Organis.

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