“A construção do solo agrícola em ambientes produtivos só é possível pela ajuda dos vegetais. Assim a “arte” de construir solos produtivos é uma interação harmoniosa entre o agricultor e os vegetais.”

O enraizamento como prática conservacionista

Em áreas tropicais o solo deve estar coberto sempre. Seja de cobertura verde ou morta, mas coberto sempre. A cobertura vegetal do solo é a base da agricultura conservacionista. A construção do solo agrícola em ambientes produtivos só é possível pela ajuda dos vegetais. Assim a “arte” de construir solos produtivos é uma interação harmoniosa entre o agricultor e os vegetais. Uma parceria, entre a planta e o homem, que produz estrutura para todas as formas de vida. Devemos reconhecer que não é o homem e sim o vegetal o grande “artífice” na construção de ambientes produtivos. Quem produz este espetáculo biodiversificado é a comunidade vegetal.

Hoje, o homem impôs à natureza os agroecossistemas, que tem como característica básica a mudança de cenários de tempos em tempos, ou de safras após safras. Nos agroecossistemas os vegetais continuam tendo uma atuação marcante, mas parece que um detalhe vem sendo renegado pelo homem a um segundo plano: o papel da raiz como protagonista na construção de solos produtivos. Nestas cenas, o homem “pouco” aparece. A construção de ambientes produtivos ocorre de cima para baixo. É o material orgânico decomposto na superfície que alimenta o interior do solo, e para isso é necessário que ocorra condições de caminhamento deste material. As raízes das plantas são as “veias do solo”. As raízes tem capacidade para alterar as condições do solo, tais como a fertilidade, agregação, a aeração, o umedecimento e o caminhamento da água no seu interior.

A agricultura conservacionista tem no manejo da vegetação o seu objetivo maior, grande parte das atividades conservacionistas tem relações intimas com o desenvolvimento de raízes e com a produção de material orgânico na subsuperfície. O manejo de raízes é uma consequência da qualidade destas relações sendo crucial para reduzir a erosão hídrica e melhorar os processos hidrológicos das áreas agrícolas. Para manejar raízes, duas práticas são fundamentais. Uma está relacionada com a disponibilização de cálcio no perfil do solo e a outra com a rotação de culturas. O papel do cálcio no desenvolvimento radicular é bem conhecido. A falta de cálcio no solo causa severas restrições ao crescimento radicular das plantas. O cálcio é um elemento químico imóvel na planta, não transloca das partes aéreas para as raízes. Assim o cálcio requerido para o crescimento de raízes tem que ser absorvido da solução do solo. Às vezes, uma quantidade adequada de calcário é aplicada superficialmente, não atingindo horizontes mais profundos restringindo as raízes em sua capacidade de crescer em profundidade. Em solos ácidos como os do cerrado o manejo do cálcio em subsuperfície é fundamental para promover enraizamento abundante e a infiltração de chuvas torrenciais. A rotação de culturas como prática do manejo de enraizamento preconiza a variação de diferentes tipos de raízes num planejamento racional de plantações diversas, sempre na busca de restabelecer um equilíbrio biológico e um equilíbrio dinâmico entre os fatores do manejo de plantas e a construção de um perfil produtivo do solo. O esquema de sucessão ordenada no tempo e no espaço permite a ocupação do solo por diferentes tipos de raízes estabelecendo assim uma condição muito boa para a conservação produtiva das terras agrícolas principalmente pela manutenção do balanço da matéria orgânica e da drenagem interna.

Para propostas de manejo conservacionista, podemos classificar as raízes em primárias, secundárias e terciárias. As raízes primárias sempre são as mais grossas, geralmente acumulam substâncias energéticas (amido, sais e proteínas), e substancias estruturantes como a lignina e celulose, são de posicionamento mais vertical, sendo geradoras da porosidade livre, ou seja, poros onde o ar e a água caminham livremente carreando as substâncias húmicas para o interior do perfil. As raízes secundárias, normalmente de posicionamento horizontal são mais abundantes do que as primárias sendo responsáveis pela manutenção das funções vitais (respiração, absorção de sais e água) servem também como estrutura de acumulação de nutrientes de reserva além de servirem como uma espécie de ponte para as raízes terciárias de onde partem os “pelos” absorventes, responsáveis pela absorção de nutrientes do solo.

Um perfil de solo bem formado apresenta abundancia de raízes em profundidade e em toda a sua superfície. O desenvolvimento da prática do enraizamento na agricultura conservacionista leva a construção de ambientes produtivos e com menor risco de degradação.

Afonso Peche Filho
Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC
Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus respectivos autores e não refletem necessariamente a opinião da Organis.

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