“Mas, assim no Brasil como no primeiro mundo, seja para fazer a conversão de convencionais para orgânicos ou aumentar a produção dos orgânicos já existentes, é necessário capital. E é aí que entram mecanismos como os fundos ESG.”

Quando secas ou inundações devastam a produção de um país da periferia do capitalismo, o mundo fica preocupado. Mas quando os sinais evidentes de desequilíbrio ambiental atingem Canadá, Alemanha, Austrália, EUA, o mundo fica apavorado.

Sentindo nas próprias peles, os habitantes dos grandes centros do poder mundial aumentam ainda mais a pressão nas autoridades, que, por sua vez, passam a dar ouvidos àqueles que avisam, há décadas, que precisamos mudar o nosso modelo de consumo. Um modelo cuja base claramente insustentável está na mesa, no prato, na comida das pessoas. Pois é aí que está a raiz dos problemas que estão degradando rapidamente os recursos do planeta.

A alimentação é um tema muito amplo, que movimenta dezenas de vertentes, cada uma delas querendo provar que a sua visão é a mais correta. O que comer, quanto comer, como preparar, como armazenar, como transportar, como vender? Tudo isso é motivo de animados debates. Mas, não por acaso, quando se fala em produção, a dúvida acaba e todos concordam que o cultivo orgânico é parte relevante na construção de um futuro sustentável.

Mas, assim no Brasil como no primeiro mundo, seja para fazer a conversão de convencionais para orgânicos ou aumentar a produção dos orgânicos já existentes, é necessário capital. E é aí que entram mecanismos como os fundos ESG. ESG? Mais uma sigla da moda? Espere, que eu explico. Esses tais fundos são, simplesmente, aqueles que reúnem recursos de uma modalidade de investidores que baseiam as suas decisões na análise dos quesitos da cultura ESG, ou seja, Environmental, Social e Governance ou, em bom português, Ambiental, Social e Governança.

E os investidores do ESG não fazem isso apenas porque acham moralmente superiores as boas práticas das quais depende a sobrevivência do ser humano. Eles também consideram, com base em resultados, que são mais sólidos, firmes, rentáveis e duradouros os negócios de empresas de qualquer segmento que levem em consideração o respeito ao meio ambiente, a justiça nas relações com funcionários, parceiros e comunidade, assim como praticam a ética nas relações comerciais. Releia a lista de qualidades sintetizada na frase anterior e perceba que os valores básicos ESG são exatamente os mesmos dos empreendedores orgânicos.

E quais são as dimensões reais dessa modalidade de negócio que vem crescendo cada vez mais rápido? Para ter uma leve ideia, segundo a Bloombeg Intelligence, somando apenas os investimentos na Europa, os fundos ESG atingiram US$ 1,4 trilhão em 2020, um salto de mais de 200% em relação a 2018. Ainda segundo a Bloomberg, no início de junho de 2021 esse valor já havia ultrapassado os US$ 3 trilhões. Vale salientar que esses fundos não se destinam apenas a grandes corporações da União Europeia, mas a empreendimentos de todos os portes e regiões, desde que cumpram os seus requisitos.

E o que reserva aos orgânicos o fenômeno do ESG e outros mecanismos semelhantes? Afinal de contas, a nós está destinado o trabalho duro nos processos para reverter a lógica atual da produção e consumo de alimentos. Então, o que vão ganhar os orgânicos, aqueles cuja técnica de manejo do solo e das plantas, assim como das suas relações com o meio ambiente, são reconhecidos como a base de todas as demais atividades conservacionistas? Isso depende muito dos nossos avanços em organização coletiva e determinação individual, de modo que sejamos elegíveis na hora de receber a nossa merecida cota de recursos para crescer.

Mas tudo começa na disposição dos orgânicos em conhecer, estudar, conversar e ir atrás dos benefícios desta e de outras siglas que também nos dizem respeito. ESG? Sim, ESG e seus muitos etc.

Cobi Cruz
Diretor na Organis – Associação de Promoção dos Orgânicos

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