“Somos famosos por não usarmos veneno? Ótimo, tudo bem. Podemos aproveitar essa deixa para contar que as tais “pragas” não deixam de atacar nossas lavouras só porque somos simpáticos, mas porque manejamos organicamente os cultivos e, em alguns casos, empregamos controles biológicos”

Quantas safras passarão até que grande parte do público entenda que a agricultura orgânica não é apenas aquela que não utiliza agrotóxicos? Alguns até emendam esse raciocínio, dizendo que, sem o custo dos pesticidas, os produtos orgânicos deveriam custar menos que os convencionais. Vamos dar um desconto. Não em dinheiro, claro, mas em paciência, pois a desinformação sobre a cultura orgânica vem de longe. 
 
Parte dela é responsabilidade do próprio movimento, que ainda falha na hora de difundir os conceitos que se abrigam debaixo do guarda-chuva dos orgânicos. Talvez nos falte, também, conhecermos em profundidade a nossa trajetória, para que, seguros e municiados de dados objetivos, possamos ser mais amplos, leves, criativos e interessantes na hora de contarmos nossa história. 
 
Somos famosos por não usarmos veneno? Ótimo, tudo bem. Podemos aproveitar essa deixa para contar que as tais “pragas” não deixam de atacar nossas lavouras só porque somos simpáticos, mas porque manejamos organicamente os cultivos e, em alguns casos, empregamos controles biológicos. E que essa técnica, por sua vez, só é possível porque mantemos ativos os bilhões de organismos do solo. E que só podemos contar com a força dessa microbiota porque não sugamos a terra até a exaustão para depois “bombá-la” com aditivos químicos.  
 
As pessoas vão gostar de saber que a vida não existe de forma isolada, que ela é um poderoso sistema de trocas e que nossa sobrevivência depende da interação respeitosa com o meio ambiente. 
 
Precisamos contar, sem medo de parecer arrogantes, que sabemos produzir mantendo e ajudando a regenerar esse complexo e delicado ciclo de vida do planeta. E que em nossos estudos e prática diárias estamos sempre fazendo novas descobertas sobre essa fantástica estrutura. 
 
Enfim, o movimento orgânico tem muito a dizer, deixando claro que fazemos tudo isso e muito mais não por sermos uma seita de iluminados com métodos secretos e esotéricos, mas por termos construído um conjunto de saberes, valores e técnicas que podem perfeitamente ser ensinadas, disseminadas e praticadas. 
 
Neste momento em que a agroecologia busca maneiras de evitar o colapso ambiental, os orgânicos são a opção mais consolidada, pronta para ser praticada em escala viável para suprir as reais necessidades das pessoas. Nós somos o saber humano fazendo as pazes com a natureza. Somos a ciência com consciência. Nós somos o futuro, agora.

Cobi Cruz
Diretor na Organis – Associação de Promoção dos Orgânicos

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