“Por isso, vem ganhando força em todo o mundo o modelo de Agricultura Regenerativa que, com técnicas de manejo já bem difundidas, buscam transformar a prática agrícola em uma solução para captura de carbono da atmosfera, além de permitir a produção de alimentos mais saudáveis. Vale assistir o documentário “Solo Fértil” (Netflix)”

Uau! Ainda é 2020! Se tem um ano que está demorando a passar, é este! E diferente de outros, este ano não vai acabar no dia 31 de dezembro. O que aconteceu até aqui, e o que ainda pode acontecer, continuará repercutindo nos próximos anos e talvez nas próximas décadas.

Para muitos, este ano vai ser marcante também pelos “chamados” (em inglês se diz “wake-up call”), sinais de alerta que tocam o indivíduo. Muitas pessoas se viram forçadas a repensar suas vidas e a refletir sobre o que é essencial e importante para elas. E desses múltiplos despertares pode sair muita coisa boa para o mundo!

“Pensando orgânico”, o nome desta coluna, é também uma maneira de pensar nos seres que somos de forma mais integral e menos egoísta. Começa com a mãe que se conscientiza em comprar alimentos orgânicos para o bem da saúde de seu bebê e daí passa a consumir orgânico por toda a vida, e vai até o produtor no campo que entende que o cultivo orgânico é melhor para sua saúde e a da Terra. E entre eles há espaço para diferentes graus de consciência, daqueles que entendem também que consumir orgânico vai além dos benefícios para a saúde e que isso permite constituir uma rede mais justa e mais conectada com a natureza que herdamos.

Ainda estou em transição! Estes últimos dois meses foram muitos ricos em aprendizados e experiências para mim que quero cada vez mais este estilo de vida “pensando orgânico”.

“Grandes mudanças não vêm em tempos de tranquilidade”, disse o professor da Universidade da Califórnia, Tyrone B. Hayes, no evento “Pioneiros orgânicos premiados em 2020”, promovido pelo Rodale Institute. Talvez esta frase também ajude a entender porque alguns negócios têm crescido muito neste período, enquanto outros estão morrendo. Neste mesmo evento também foi mencionado que o setor orgânico deve crescer 20% nos EUA este ano. Um estudo traduzido pela Organis identifica uma tendência de crescimento acima de 20% em todo o mundo. Outro destaque do evento foi que a pandemia tem reforçado a importância da cadeia de alimentação: “Mais pessoas passaram a se perguntar de onde vem o seu alimento”, constatou um dos participantes¹.

Também é preciso falar de mudanças climáticas e, mais do que isso, agir! A mudança do clima e seus efeitos não são algo distante, que acontece longe de nós. Precisamos deixar de pensar naquele urso polar preso em um bloco de gelo. Os efeitos das mudanças climáticas já são sentidos em cada esquina do planeta. Por isso, deveríamos falar de “incêndios climáticos”, “enchentes climáticas”, “furacões climáticos”, “secas climáticas” e até “calor insuportável climático” para conseguirmos perceber como este fenômeno está nos afetando hoje. Esta é a ideia defendida em artigo publicado no The New York Times que traz uma série de mapas mostrando o risco climático específico em cada região dos EUA. Você sabe qual o risco específico na sua cidade ou quais os riscos nas regiões do Brasil onde produzimos nossos alimentos?

Com todos esses eventos climáticos extremos, as perdas e os prejuízos da lavoura serão mais frequentes. Daí, que precisamos criar um plano de “resiliência climática”; entender quais medidas precisam ser tomadas para reduzir e antecipar possíveis catástrofes. Acontece que a cadeia de produção de alimentos como um todo, incluindo os insumos químicos utilizados, processamento e transporte, refrigeração e disposição de resíduos, é responsável por mais de 30% das emissões de carbono anuais².

Por isso, vem ganhando força em todo o mundo o modelo de Agricultura Regenerativa que, com técnicas de manejo já bem difundidas, buscam transformar a prática agrícola em uma solução para captura de carbono da atmosfera, além de permitir a produção de alimentos mais saudáveis. Vale assistir o documentário “Solo Fértil” (recém lançado no Netflix) que ajuda a refletir sobre como colocar nossos sistemas de produção de alimentos na direção correta agora!

Finalmente, seja para atender a crescente demanda por alimentos orgânicos, seja para construirmos resiliência climática, vamos ter que investir mais em Agricultura Orgânica-Regenerativa. Alguns modelos estão sendo elaborados com este objetivo específico. Um exemplo nos EUA é o da rePlant que conseguiu mobilizar US$ 250 milhões para investir em produtores agrícolas que queiram adotar o modelo de produção orgânico-regenerativo, com benefícios para a saúde humana e para o clima.

No Brasil, a Rizoma Agro, que se apresenta como uma continuação do pioneiro e bem-sucedido trabalho da Fazenda da Toca, e que já é hoje a maior produtora de grãos orgânicos do Brasil, emitiu o primeiro “green bond” agrícola. A emissão de um Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) no valor de R$ 25 milhões, teve a marcação de “título verde” confirmada pelo Climate Bond Initiative (CBI), dado as características do modelo de produção de suas fazendas.

E como este capital que preza pelo impacto positivo na agricultura (e pelo bem da agricultura!) pode chegar aos pequenos e médios produtores no Brasil? Este é o tema no qual a Flourish está trabalhando para fazer acontecer nos próximos meses e sobre o qual vou continuar dando destaque aqui nesta coluna.

Gustavo Mamão
Fundador Flourish [Negócios com Propósito]
gustavo@flourishnegocios.com.br

 

¹ “2020 Organic Pioneer Awards: the past, present and future of our movement”, webinar realizado no dia 21 de setembro. Participaram deste evento, Jeff Moyer, CEO Rodale Institute; e os “pioneiros premiados” em 2020: Katherine DiMatteo, fundadora da OTA (Organic Trade Association), que ajudou a implantar a atual legislação de orgânicos nos EUA; Dr. Tyrone B. Hayes (professor da Universidade da Califórnia, Berkeley), que pesquisou os efeitos do pesticida atrazina, banido na Europa desde 2006; e Grant Lundberg, CEO do Lundberg Family Farms, empreendimento familiar fundado em 1937, produtor de arroz e quinoa e detentor de 168 marcas de produtos orgânicos comercializadas nos EUA e Canadá.

² Rodale Institute – Regenerative Agriculture and the Soil Carbon Solution (Setembro, 2020), pág. 6

Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus respectivos autores e não refletem necessariamente a opinião da Organis.

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