“Em 2017, o Rodale Institute iniciou um teste de quatro anos estudando os efeitos do cânhamo industrial como parte de uma rotação regenerativa de culturas orgânicas para melhorar a saúde do solo, aumentar a produção de culturas, suprimir ervas daninhas e melhorar a fertilidade do solo por meio do cultivo da Cannabis em campos experimentais na Pensilvânia.”

Nas últimas semanas acompanhamos no Brasil uma série de notícias sobre a legalização do cultivo de Cannabis que animaram pesquisadores, comunidade médica e pacientes que necessitam do CBD, substância terapêutica extraída da planta. No começo de junho, uma comissão especial da câmara dos deputados aprovou  parecer favorável à legalização do cultivo no Brasil, para fins medicinais, veterinários, científicos e industriais.

Por enquanto o plantio poderá ser feito apenas por pessoas jurídicas (empresas, associações de pacientes ou organizações não governamentais) – não há previsão para o cultivo individual e seguem proibidos cigarros, chás e outros itens derivados da planta. Mesmo com o avanço ainda tímido, dependente de regulação e aprovação no Senado Federal, o tema dos benefícios do cultivo da Cannabis voltou à mídia, trazendo a tona as múltiplas possibilidades da planta, que é inclusive tema de um fundo de investimento lançado por uma grande corretora brasileira. 

Se já está claro para o mercado que a Cannabis é uma realidade para investimento e ganhos econômicos, ainda falta muito à ser esclarecido sobre o seu potencial agronômico e seu potencial de uso dentro de uma agricultura mais sustentável e ecológica. A lei aprovada no brasil abre espaço para o ressurgimento do cânhamo (nome da variedade de Cannabis com baixo teor da substância psicoativa chamada tetra-hidrocanabiodiol, ou THC) como cultura comercial e sua capacidade de integração em práticas agrícolas regenerativas não pode ser ignorada. 

Por exemplo: o manejo de plantas espontâneas costuma ser um obstáculo constante para os agricultores orgânicos e uma barreira para aqueles que consideram a transição para o sistema orgânico. A solução para superar essa barreira geralmente inclui o uso de culturas de cobertura: plantas que são capazes de crescer rapidamente, suprimindo as “ervas daninhas” sem o uso de herbicidas e trazendo benefícios para a saúde do solo em geral, maximizando a produtividade do cultivo seguinte. Nesse aspecto a Cannabis tem muito a contribuir: O cânhamo cresce rapidamente e tem um extenso sistema radicular, tornando-o uma ferramenta com grande potencial para a supressão natural de plantas espontâneas e melhorando a estrutura do solo. 

Além do uso como cultivo de cobertura, a Cannabis tem vários outros atributos que são muito valorizados na agricultura orgânica e regenerativa. O cânhamo é conhecido por ser um cultivo polivalente e pode aumentar a renda do agricultor já que possui muitos usos na agricultura e na indústria. E esse conhecimento não é de hoje: tecidos de cânhamo foram utilizados nas grandes navegações ainda no Século XIV: as caravelas da esquadra de Pedro Álvares Cabral eram movidas por velas de cânhamo. O cânhamo é utilizado também na fabricação de papel, cordas, alimentos (principalmente forragem animal) e para a fabricação de óleos, resinas, cerveja e combustíveis. Os medicamentos à base de canabidiol (CBD), já são utilizados por muitos pacientes brasileiros para o tratamento de doenças psiquiátricas ou neurodegenerativas, como esclerose múltipla, esquizofrenia, mal de Parkinson, epilepsia ou ansiedade, por exemplo.

Todo esse potencial foi percebido pelo Rodale Institute, que realiza pesquisas e produz conhecimento sobre agricultura orgânica e regenerativa há mais de 40 anos nos Estados Unidos. Pesquisadores conduziram vários experimentos para reunir informações cruciais que podem ajudar os agricultores a ter sucesso no cultivo e na utilização do cânhamo como uma ferramenta para a agricultura regenerativa.

Testando o Cânhamo Industrial na agricultura orgânica regenerativa

Em 2017, o Rodale Institute iniciou um teste de quatro anos estudando os efeitos do cânhamo industrial como parte de uma rotação regenerativa de culturas orgânicas para melhorar a saúde do solo, aumentar a produção de culturas, suprimir ervas daninhas e melhorar a fertilidade do solo por meio do cultivo da Cannabis em campos experimentais na Pensilvânia.

Entre os ensaios realizados no estudo estão a análise do consumo e disponibilização de nutrientes, encontrar as melhores épocas de plantio e qual foi a produção de CBD – substância-alvo no cultivo medicinal de Cannabis. O objetivo geral da pesquisa do Rodale Institute com o cânhamo industrial era estimar o potencial desta cultura para uso dos agricultores em um sistema orgânico regenerativo. Vamos à alguns dos resultados observados:

Cultura de cobertura: Os resultados do ensaio de pesquisa indicaram que o cânhamo é uma cultura de cobertura viável e que possui maior valor econômico do que o sorgo Sudangrass, normalmente usado como forragem para o gado na região. O desenvolvimento radicular da Cannabis indica que a cultura tem também potencial para reduzir a necessidade de operações de preparo do solo em sistemas orgânicos.

Rotação de culturas: As produtividades da soja e do trigo que foram cultivados após o cânhamo em sistema de rotação de cultura permaneceram relativamente altos em comparação com outros sistemas de produção na fazenda do Rodale Institute na Pensilvânia – frequentemente atingindo ou excedendo as médias nacionais dos Estados Unidos.

Adubação e produtividade: No ensaio de aplicação de nutrientes, verificou-se que a produção de grãos de cânhamo aumenta com o aumento da aplicação de fertilizante de nitrogênio. A disponibilidade de nitrogênio suficiente permite que o cânhamo maximize o crescimento e supere as ervas daninhas em espaçamentos menores entre fileiras (7,5 polegadas), enquanto as espécies de ervas daninhas superam o cânhamo em espaçamentos de fileiras maiores (15 polegadas) quando o nitrogênio é limitado.

Biorremediação: Os estudos também apontam que a Cannabis possui a capacidade de retirar do solo quantidades significativas de metais pesados – substâncias nocivas que se acumulam no meio ambiente e são nocivos para os organismos vivos. Especialmente, as substâncias chumbo e cádmio foram retiradas em quantidades relevantes.

Esses resultados iniciais de um estudo de quatro anos trazem boas perspectivas para o uso do cânhamo na agricultura orgânica. Além disso, o Instituto planeja testar mais variedades, para encontrar a melhor época de plantio, data de colheita, taxa de semeadura e espaçamento para maximizar a disponibilidade comercial de variedades para os mais diversos usos possíveis – seja ele a produção de fibras, sementes ou biomassa. Pesquisas como essa nos ajudam a aprender como aumentar a renda do agricultor e determinar se elas podem se encaixar em uma rotação de grãos como cultura supressora de plantas espontâneas.

Com o progresso da legislação no Brasil, esperamos reproduzir aqui estudos como esse, capazes de trazer novas ferramentas para uma agricultura sustentável e regenerativa, aumentando a renda dos produtores, trazendo uma alternativa econômica de grande valor para rotação de cultura no plantio de grãos orgânicos, como soja, milho e trigo. Enquanto ainda não chegamos lá, convido vocês a conhecerem mais sobre a pesquisa do Rodale Institute clicando aqui.

Daniel Araujo  
Engenheiro Agrônomo especialista em agricultura orgânica regenerativa e fundador da OrgânicosPro
danielaraujo@organicospro.com.br

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