“Nenhuma empresa terá vida longa se sair pelo mundo aplainando montanhas, soterrando rios e lagos, extinguindo animais, derrubando florestas, corrompendo governos, financiando guerras e acrescentando substâncias duvidosas aos seus produtos.”

A produção de orgânicos e o novo capitalismo

Publicado originalmente na revista Globo Rural em 24 de Junho de 2020

Produzir e consumir como se não houvesse amanhã é uma conta que não fecha, já que os recursos naturais são finitos.

Ideologias à parte, hoje se sabe que o capitalismo predatório do passado não tem futuro. Calma, não vou começar aqui mais um capítulo do interminável debate circular de esquerda x direita, essa eterna briga entre irmãos siameses. O caso aqui é outro, e bem mais interessante.

A aritmética básica basta para demonstrar, sem sombra de dúvida, que produzir e consumir como se não houvesse amanhã é uma conta que não fecha, já que os recursos naturais são finitos e sua reposição, conforme a ciência, demora alguns bilhões de anos.

Nesse ponto, uma pausa para fazer justiça aos produtores e consumidores de orgânicos. Esses podem fazer como aquele torcedor que, ao final da partida, levanta, cheio de orgulho, um cartaz onde se lê “Eu já sabia”.

Você pode rebater, com toda razão, que o capitalismo tem sobrevivido por ser dinâmico e capaz de recriar-se nas crises, a partir da absorção de novos conceitos que vão, aos poucos, domesticando o seu lado mais selvagem.

De fato, a busca do lucro a qualquer custo enfrenta cada vez mais resistências na opinião pública, hoje informada em tempo real. Nenhuma empresa terá vida longa se sair pelo mundo aplainando montanhas, soterrando rios e lagos, extinguindo animais, derrubando florestas, corrompendo governos, financiando guerras e acrescentando substâncias duvidosas aos seus produtos. Por isso, mesmo com suas muitas contradições, o capitalismo vem, há muito, se adaptando às exigências dos novos tempos.

Aliás, de fato, já existe um razoável consenso entre os administradores modernos de que conceitos como responsabilidade social e ambiental devem ser integrantes dos próprios modelos de negócio e não apenas vistos como atividades paralelas.

O crescimento dos orgânicos, diante dos olhos da sociedade e, principalmente, de Sua Excelência, o Consumidor, é também em grande parte, um dos efeitos colaterais mais visíveis dessa mudança estratégica do capitalismo global. Mas isso não significa que o setor tenha avançado apenas a reboque ou levado pelas ondas. Pelo contrário, os produtores orgânicos cresceram por incorporarem algumas importantes lições do mercado tradicional, tendo, para isso, deixado de lado a inação, o comodismo e, inclusive, alguns injustificáveis preconceitos.

E se o velho capitalismo se tornou um pouco mais “orgânico” para sobreviver, o novo orgânico também se beneficiou de algumas de suas leis e ferramentas de organização, planejamento, distribuição, logística.

Nas reviravoltas desse mundo em transformação, “Orgânico” se tornou uma marca coletiva de grande valor, que deve encontrar novas formas de se aproximar ainda mais de Sua Excelência, o Consumidor. Sem medo de colocar no seu dia-a-dia palavras como propaganda, marketing e a promoção, aproveitando bem um dos maiores legados do mercado convencional, a internet, esse universo em expansão que precisamos conhecer a fundo e usar cada vez melhor.

Desta maneira, nós, os orgânicos capitalistas, poderemos socializar cada vez mais a nossa visão de um mundo mais saudável, sustentável e com muito futuro pela frente.

Clauber Cobi Cruz
Diretor da Organis

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