“Os grandes e médios produtores, quase na sua totalidade, já optaram pela terceirização da logística, por diversos motivos. O primeiro deles é o custo financeiro de se manter uma frota própria.”

Crescendo acima do mercado, enfrentando a desinformação, divulgando seus conceitos e assumindo posicionamentos inovadores, o movimento orgânico vem operando verdadeiros milagres. Mas ainda não chegou a ponto de fazer seus produtos caminharem sozinhos até o consumidor e nem tampouco tem – ainda – o teletransporte à disposição.

Até que chegue esse belo dia, a definição de uma logística adequada continuará sendo uma necessidade básica do negócio. O advento da pandemia acelerou esse processo, obrigando muitos produtores a reverem suas planilhas, na busca de soluções eficazes e, sobretudo, economicamente viáveis.

Um parênteses para lembrar que 80% da perda das safras de alimentos acontecem nos processos de transporte, manuseio, armazenamento e distribuição. Esse desperdício custa, no Brasil, a bagatela de 1 bilhão de dólares ao ano. Comida suficiente para alimentar 18 milhões de pessoas com três refeições diárias. País pobre, lixo rico.

Voltando à nossa estrada, qual é a melhor opção para a distribuição dos orgânicos? Na verdade, não existe apenas uma, elas são muitas, tantas quanto a diversidade de produtos, regiões, portes e objetivos dos produtores. No universo orgânico há várias realidades e cada uma delas requer uma solução – ou conjunto de soluções.

Os grandes e médios produtores, quase na sua totalidade, já optaram pela terceirização da logística, por diversos motivos. O primeiro deles é o custo financeiro de se manter uma frota própria. Não é conveniente arcar com os custos de aquisição e manutenção de veículos, contratação e administração de profissionais, questões trabalhistas, acidentes, quebras e outros encargos. Na realidade, se assumissem esse trabalho, a atividade de logística acabaria se tornando uma empresa paralela, gerida de forma pouco profissional, desviando do foco do negócio.

Outro importante fator para a tomada de decisão é que a terceirização facilita o planejamento, pela previsibilidade que proporciona. Com ela, os custos se tornam fixos, os valores conhecidos e não há surpresas desagradáveis no processo. Mas, como sempre, essa conveniência tem um custo. Hoje, chega a cerca de 9% do preço dos produtos, valor um tanto inflacionado. Segundo os especialistas da área, o ideal é que ficasse entre 6% a 7%, com as devidas negociações.

Quanto aos pequenos produtores, a logística, na sua imensa maioria, ainda é feita por eles mesmos, por não terem uma escala de produção que justifique a terceirização. Com suas próprias caminhonetes, eles mesmos se encarregam de fazer suas entregas, com custo e metodologia aos quais já estão habituados.

Como uma espécie de meio termo entre a terceirização e a entrega própria, existem algumas experiências de sistemas de entregas cooperativadas, reunindo produtores de determinadas regiões. Essa não é ainda uma prática estatisticamente relevante, mas que, dependendo de alguns fatores, pode vir a crescer no futuro.

Logística e relações com o varejo

Para alguns varejistas, em especial as grandes redes, a logística dos orgânicos não acaba – ou não deveria acabar – na entrega da carga nos locais combinados. Com equipes fixas cada vez mais reduzidas, esses supermercados exigem, também, que o produtor, ou seu terceirizado, se encarreguem da administração dos produtos dentro dos pontos de venda. No melhor dos mundos isso seria excelente, se a contratação e manutenção de equipes de trabalho treinadas em vários locais simultâneos não fosse uma atividade extremamente cara e de difícil gestão.

Enfim, mais um custo, que se somaria aos tais 9% do transporte. Como sabemos que não é viável para o produtor absorver a conta dessa nova atribuição, que está fora do pacote da distribuição terceirizada, isso acabaria, fatalmente, por aumentar demasiadamente o preço final ao consumidor, o que não é bom para ninguém. Para se ter uma ideia, muitas distribuidoras de orgânicos preferiram abrir mão de bons contratos por não considerarem razoáveis essas exigências.

A pressão de Sua Excelência, o Consumidor

Mas a realidade tem suas próprias maneiras de se impor e acabar com certos impasses. E a realidade é que o consumo dos orgânicos está crescendo e a pressão do público vem empurrando o mercado em direção a outros modelos de relação entre os produtores e o varejo. É preciso chegar a um consenso, pois, como sabemos, as margens de lucro das duas pontas são finitas e as soluções precisam ser competitivas.

Com alto consumo, preços menores, giro mais rápido, perdas reduzidas e uma escala robusta de negócios, é inevitável que os modelos atuais, ou seja, entrega loja a loja e direto do produtor para a loja, sejam substituídos pela entrega nos centros de distribuição do varejista.

E precisamos ter em mente a velocidade das mudanças. Um exemplo claro é a logística do e-commerce, incomparavelmente mais ágil, com menos perdas e que não depende de apenas um modelo de estoque. A pandemia e a necessidade de ficar em casa serviu para acelerar ainda mais o e-commerce, que, antes mesmo disso, já era uma tendência em alta. Por isso, nesse momento, é importante que se inicie um diálogo franco entre os diversos atores, em busca de soluções razoáveis, sustentáveis, que satisfaçam todas as partes, na mais absoluta transparência.

Para onde a logística leva os orgânicos?

É muito bom que a logística seja, hoje, uma das preocupações do movimento orgânico. Porque isso significa, é claro, que seus produtos estão indo mais longe e em maior quantidade e é preciso achar os melhores caminhos para chegar lá. Produzir em escala adequada, sem deixar de lado nossos valores é o desafio de agora e, mais ainda, do futuro próximo.

E o caminho correto, como sempre, é a profissionalização em todos os aspectos, a busca da qualidade. E a qualidade tem suas regras. Para se obter bons produtos é preciso que toda cadeia seja voltada para isso, em todas as fases, na escolha do que produzir, no plantio, na colheita, no processamento, no acondicionamento correto, no design de embalagens, na divulgação, no transporte em temperatura adequada, na exigência de mais e melhor visibilidade nos pontos de venda.

O principal é fazer bem feito o nosso serviço. Com carinho. Cada vez mais. E para isso não precisamos de caminhões. Ou de teletransporte, por enquanto.

Cobi Cruz
Diretor na Organis – Associação de Promoção dos Orgânicos

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