“Cruzamos esse resultado com dados que já tínhamos e, de início, nos chamou a atenção o fato de que o número de unidades produtivas cadastradas no Ministério da Agricultura, composta de cerca de 21 mil produtores de orgânicos, não aumentou na mesma proporção. A conclusão clara é que os orgânicos estavam preparados para esse aumento. “

Um matemático bem-humorado já disse que a estatística é a ciência que nos permite morrer afogados em um lago com profundidade média de 15 centímetros. Por isso, diante de qualquer enxurrada de números, convém pensar, analisar, comparar e, até, refutar, se for o caso. Mas, é sempre valioso termos em mãos algo além do achômetro e da intuição.

A nova pesquisa Organis, por exemplo, surgiu da necessidade de confirmar a percepção que tivemos em nosso contato direto e diário com o universo dos orgânicos brasileiros. Estava claro para nós que 2020 trouxe, junto aos muitos problemas, uma grande movimentação em nosso setor. Porém, como às vezes a percepção engana, queríamos ter certeza de que não estávamos caindo no erro de enxergar apenas dentro da nossa bolha. Aí veio a ideia de realizarmos o levantamento, lembrando que ele foi feito a partir das opiniões de pessoas já com algum interesse no tema orgânico e que, por diversos motivos, frequentam o site e as redes sociais da Organis, assim como a nossa lista de emails.

A base de dados foi construída a partir de um questionário do Google Formulário, que recebeu 456 respostas durante o mês de setembro. Devidamente analisados, para evitar o afogamento na parte mais funda do lago, os resultados confirmaram aquilo que já percebíamos no dia-a-dia: houve um surpreendente aumento de consumo de orgânicos durante a pandemia. Quase a metade dos entrevistados afirmou que sim.

Na segunda pergunta, ficou evidenciado que a metade deste grupo consome tanto orgânicos in natura quanto industrializado. Isso é relevante porque prova que os orgânicos estão conquistando cada vez mais espaços enquanto marcas estabelecidas na indústria. Informação preciosa, inclusive, por melhorar as relações com o comércio, pois sabemos que o grande varejo, especialmente, fatura um pouco mais na mercearia do que no hortifruti.

Na terceira pergunta, sobre o preço ao consumidor, um pouco mais da metade percebeu que houve um aumento. De fato, embora muitos produtores não tenham repassado seus custos, outros foram muito pressionados a compensar os fortes aumentos de alguns itens, como transporte e embalagens.

Outra constatação ficou bem evidente na pergunta seguinte e confirmou o que já vínhamos observando neste cenário de pandemia: um crescimento acima da média geral da venda de orgânicos em feiras de rua, lojas especializadas e, principalmente, nas vendas online.

A pesquisa que a Organis realizou em 2017 revelava que 64% dos consultados comprava orgânicos em supermercados. A enquete atual mostra que essa proporção mudou e hoje cerca de 50% deles compram em supermercados e que um de cada cinco consumidores compra online. Isso significa que o grande varejo perdeu espaço? Vamos devagar, para não nos afogarmos na média. Indo um pouco mais a fundo na análise, vimos que os orgânicos continuam crescendo no varejo. Mas é fato que a  presença dele cresceu muito mais, proporcionalmente, nas feiras de rua e no ambiente de internet.

A quinta pergunta revelou que cerca de 60%, em tempos de pandemia, se diz mais preocupado com a questão da saúde e, consequentemente, com a qualidade dos alimentos.

Na pergunta seguinte, a Organis ficou feliz de saber que metade desse grupo afirma consumir orgânicos todos os dias. E um a cada quatro consome orgânicos pelo menos duas vezes por semana. Nossa pesquisa de 2019 revelava que apenas 36% dos consumidores de orgânicos consumia estes produtos mais de cinco dias por semana. Então, é importantíssimo perceber (e confirmar com números robustos) que os orgânicos já são parte da rotina dessas pessoas.

Cruzamos esse resultado com dados que já tínhamos e, de início, nos chamou a atenção o fato de que o número de unidades produtivas cadastradas no Ministério da Agricultura, composta de cerca de 21 mil produtores de orgânicos, não aumentou na mesma proporção. A conclusão clara é que os orgânicos estavam preparados para esse aumento. Demonstraram melhor produtividade, ou seja, o mesmo universo de produtores se adaptou para produzir mais, estavam prontos para o crescimento da demanda.

Ainda na questão da saúde, destaco que quando perguntados se o aumento da presença da agricultura orgânica nas diversas regiões pode colaborar com a prevenção de novas pandemias, precisamente 81,8 % das pessoas disse acreditar que sim. Ou seja, a imensa maioria dos consumidores de orgânicos brasileiros enxerga cada vez mais uma relação direta do modo de produção orgânico com práticas mais seguras para saúde humana, para o meio ambiente e para saúde do planeta.

Como síntese dos resultados da enquete, podemos concluir que o mercado brasileiro tem muito chão para o crescimento dos orgânicos. A crise da saúde, mesmo com todo o seu caráter de exceção, serviu como um evento revelador. Temos certeza que, insistindo na divulgação de seus princípios e de seus benefícios, os orgânicos podem conquistar novos e sólidos espaços, independentemente de situações de crise.

Para a Organis, como entidade de promoção deste setor, foi uma grande vitória, ou melhor, mais uma batalha ganha, pois temos muito chão pela frente. Insistir, divulgar mais e melhor, é o que precisamos fazer. Mas podemos festejar, pois tudo nos diz que teremos um Brasil cada vez mais orgânico, seguindo tendências já consolidadas em outros mercados do mundo. Além disso, podemos construir esse novo mercado sobre valores mais democráticos, ampliando o acesso ao consumo, o que é bom para todo mundo e bom para o mundo. Persistir e inovar, esse é o caminho em que a Organis acredita. E que, cada vez mais, os consumidores confirmam.

Cobi Cruz
Diretor da Organis – Associação de Promoção dos Orgânicos

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