“Voltar a ter uma relação pacífica, carinhosa e protetora com a natureza é a grande questão do momento, uma questão de vida ou morte.”

“Vou levando a vida”, costumamos responder quando não temos nenhuma grande novidade a contar. Essa frase, tão simples e inofensiva, esconde um perigo, a de encarar a vida como coisa rotineira, quando ela, em si mesma, é um fenômeno incrível, quase uma impossibilidade matemática, tantas as “coincidências” envolvidas nas suas equações.    

Na verdade, ainda não encontramos na imensidão do universo essa raridade que vemos na Terra com olhos às vezes entediados, a capacidade de transformar os elementos simples em elementos complexos. Ou em outras palavras, o salto de coisas brutas e inanimadas para coisas com alma, isto é, vivas. 

A vida então é complexa? Muito, muito mesmo. Mal arranhamos a superfície nos estudos de seus mistérios. O caminho é tão longo que, no ritmo de consumo e destruição atuais, talvez ela acabe antes de termos compreendido as suas bases. 

Então, se somos ignorantes sobre a estrutura da vida e ela é frágil em sua grandeza, estamos condenados irremediavelmente ao fracasso? Felizmente, não. Porque, apesar de tudo, estamos mergulhados nesta complexidade, que é a vida e, portanto, dentro de nós estão suas leis, que podemos compreender com outras ferramentas além das ciências exatas. Essa capacidade inata ainda existe. Apenas sufocamos nossa sabedoria natural no processo de civilização, da transformação das formas de vida primeiro em meio de subsistência, depois em comércio e, mais adiante, em excesso, em ganância, em desperdício.  

Há muito tempo a nossa tribo declarou guerra às forças naturais e desde lá buscamos vencê-las, domá-las, escravizá-las, torná-las dóceis e úteis – em nosso limitado sentido de utilidade. Muitos dizem, conformados, que “a vida é assim”, quando na verdade ela se desenrola dentro de um processo histórico e, portanto, cheio de possibilidades. E hoje, certamente, essa relação não deve, e mais ainda, não precisa continuar sendo levada com base na truculência. Voltar a ter uma relação pacífica, carinhosa e protetora com a natureza é a grande questão do momento, uma questão de vida ou morte.  

Podemos afirmar que, além de complexa, a vida é simples. Reconstruindo nossa ligação, nossa religação com a natureza, podemos, sim, adequar nosso comportamento a um ritmo que permita à vida continuar respirando, dentro e fora de nós. Religar, que vem de religare, que derivou na palavra religião. Então, praticar essa reconexão talvez seja a religião do futuro, a religião natural, sem misticismos ou obrigações que, quase sempre, destinamos aos outros cumprir. Não precisamos ser sacerdotes ou cientistas iluminados para compreender aquilo que está dentro da gente, impresso, desde o primeiro movimento autônomo da primeira célula no planeta. 

Para superar o comodismo e o preconceito multimilenares, não é preciso ir muito longe. Temos em nós mesmos o DNA da mãe terra, contendo toda a história da vida no planeta, uma imensa biblioteca na qual se encontram à disposição as respostas e muitas novas perguntas.  

Nesse processo em curso, cresce cada vez mais a importância de movimentos como o orgânico, que comprova na prática ser possível viver, e viver muito bem, sem agredir o ambiente. Melhor ainda, que podemos produzir reconstruindo o que foi destruído. Para que, da próxima vez que nos perguntarem o que a gente anda fazendo, possamos responder: – Ah, vou elevando a vida.

Cobi Cruz
Diretor na Organis – Associação de Promoção dos Orgânicos

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