“O consumo global de castanhas e frutas secas tem crescido 6% ao ano de acordo com INC (International Nut and Dried Fruit Council) e o Brasil participa desse mercado principalmente com as castanhas do Pará e de caju das regiões norte e nordeste respectivamente.”

O Cerrado, também conhecido como savana brasileira, localizado no Planalto Central, é o segundo bioma do país em área, apenas superado pela Floresta Amazônica. Apresenta rica biodiversidade com grande número de espécies vegetais, e os estudos envolvendo estas espécies é de suma importância para divulgar conhecimento sobre as características nutricionais, incentivar o consumo, o manejo sustentável e o cultivo econômico, contribuindo para a preservação deste bioma, desde que haja o aproveitamento industrial alinhado a projetos envolvendo biodiversidade para alimentação e nutrição.

Uma espécie nativa do cerrado que vem se destacando como alimento é o do baru, leguminosa arbórea lenhosa, conhecida até pouco tempo para aproveitamento como madeira e a partir dos estudos em universidades, órgãos de pesquisas e organizações ambientalistas, o conhecimento do valor nutricional e funcional do baru tem chegado à população, valorizando seu potencial tecnológico e econômico.

O baruzeiro apresenta intensa frutificação, cerca de 2.000 a 6.000 frutos por planta, a colheita é realizada entre setembro e outubro, época mais seca da região. Produz frutos com epicarpo fino, de aspecto macio e quebradiço, com mesocarpo espesso, farináceo e de consistência macia constituindo a polpa que envolve um endocarpo lenhoso contendo uma única semente oleaginosa comestível, denominada castanha de baru, sendo esta a parte mais valorizada e comercializada. O baru é consumido pela população local e hoje já é industrializado em pequenas empresas ou cooperativas, com perspectivas de rápido crescimento inclusive para exportação. As castanhas podem ser utilizadas em substituição a outras castanhas em preparações culinárias ou produtos industrializados como paçocas, biscoitos, barras de cereais, bolos, chocolates, aperitivos, molhos, farinhas, óleos entre outros. Existe interesse tecnológico sobre as potencialidades do baru, não só da semente, mas também da polpa e do endocarpo. A semente do baru representa 5% do rendimento do fruto inteiro e a polpa 30%, assim já são fabricados produtos alimentícios da casca e polpa de baru desidratada em forma de chips ou farinha e o endocarpo lenhoso, resíduo da industrialização, pode ser aproveitado para fabricação de carvão ou como forração de jardins.

Baru como super alimento – seu aspecto nutricional

Os valores nutricionais de frutos do cerrado são informações importantes para aplicação tecnológica, avaliação do consumo e formulação de novos produtos, promovendo o consumo e consequentemente conscientização sobre a preservação de espécies economicamente aproveitáveis.

Como a maioria das oleaginosas, a castanha de baru apresenta quantidades consideráveis de lipídios e proteínas, e em decorrência disso, constituem boas fontes energéticas, porém o seu maior destaque são as vantagens dos compostos funcionais que incluem ácidos graxos poli-insaturados, fibras e fitoquímicos que, além da nutrição básica, trazem benefícios à saúde, à capacidade física e ao estado mental, prevenindo doenças.

A castanha de baru apresenta em média de 26% de proteínas, valor maior do que o amendoim, castanha de caju e castanha do Pará, e fornece todos os aminoácidos essenciais. Além dos aminoácidos essenciais, destaca-se o conteúdo de glutamina da amêndoa de baru, aminoácido responsável pela manutenção do equilíbrio ácido-base, regulação da síntese e degradação proteica, melhora da imunidade, da absorção intestinal, indispensável para recuperação de indivíduos desnutridos, em pós-operatório e utilizado em dietas parenterais. A castanha de baru é uma ótima opção de grupos específicos, como os vegetarianos que precisam ingerir fontes proteicas de origem vegetal de melhor qualidade.

Quanto aos lipídeos a porcentagem é em torno de 38 % , valor abaixo do amendoim e das castanhas de caju e do Pará, sendo importante para dietas hipocalóricas. Outra vantagem nutricional da castanha de baru é que apresenta proporção de ácidos graxos essenciais que contribui para prevenção de doenças cardiovasculares.

Carboidratos

O conteúdo de carboidratos da castanha de baru é em torno de 12%, apresentando baixo índice glicêmico, auxiliando no controle das taxas de glicemia, evitando os picos de insulina e ajudando no controle do peso.

Fibras

Outro destaque da castanha do baru é o alto teor de fibra alimentar, 14%, valor que representa de 2 a 3 vezes o teor do amendoim e das castanhas brasileiras de caju e Pará. As fibras são compostos considerados funcionais por prevenirem doenças cardiovasculares, reduzirem nível de colesterol sanguíneo e o risco de desenvolvimento de alguns tipos de cânceres, principalmente do intestino. A castanha de baru possui alto teor de minerais, possui mais cálcio do que o leite e mais ferro do que a carne.

Uma porção de 100 gramas equivale a 59% da ingestão diária recomendada de ferro, sendo importante para combate à anemia. Também é fonte de potássio, fósforo, magnésio e zinco. É importante ressaltar o alto teor de potássio e a reduzida concentração de sódio o que pode favorecer o controle hidroeletrolítico e da pressão arterial.

O zinco é um mineral que ajuda na imunidade e no controle de diversas doenças e importante para a fertilidade feminina e masculina, 100g de castanha fornecem 47% da quantidade de zinco recomendada por dia. A amêndoa de baru apresenta maiores teores de compostos fenólicos totais comparativamente ao amendoim, avelãs, castanha-do-brasil, castanha de caju, pinhões e macadâmias.

O consumo de alimentos antioxidantes e ricos em fitoquímicos está relacionado à redução do risco de doenças crônicas e degenerativas como doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson e alguns tipos de câncer.

O óleo de Baru

O óleo extraído da castanha é fonte também de potente antioxidante e preventivo na formação de trombos. Os ácidos graxos da família ômega, quando consumidos nas dosagens recomendadas, são importantes na prevenção da hipertensão e na redução do colesterol total e LDL (colesterol ruim), regularizam os níveis de glicose no sangue, reduzem a gordura abdominal e a incidência de câncer, além de ajudarem na cicatrização e na diminuição da queda de cabelo.

Os empresários brasileiros que são os pioneiros no extrativismo, coleta, processamento e exportação do baru sustentável para o mundo todo

O consumo global de castanhas e frutas secas tem crescido 6% ao ano de acordo com INC (International Nut and Dried Fruit Council) e o Brasil participa desse mercado principalmente com as castanhas do Pará e de caju das regiões norte e nordeste respectivamente. Recentemente, o Centro-Oeste passou a colaborar neste portfólio com a castanha de baru.

Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da USP, o agronegócio brasileiro poderá aumentar a exportação com estes produtos e expandir o superávit comercial. Estados Unidos, Canadá e alguns países Europeus, já conhecem a castanha de baru graças ao trabalho de três empresários brasileiros e estes países ao lado deles têm ajudado na divulgação das qualidades do baru em termos de sabor, valor nutricional e funcional.

A Associação Brasileira de Nozes, Castanhas e Frutas Secas (ABNC/nuts), tem uma previsão de fechar 2020, com negócios na ordem de US$ 137 milhões, sendo fundamental a partir daqui uma política pública articulada, com crédito aos produtores, redução de impostos, pesquisas que divulguem as potencialidades das castanhas agregando valor a estes produtos e aumentando o interesse dos agricultores pelo seu cultivo. Do ponto de vista econômico a castanha do baru, como as castanha do Pará e de caju tem alto valor agregado, é comercializada no varejo em média a R$80,00.

O extrativismo do baru promove a geração de renda para agricultores familiares extrativistas ajudando a fixar as famílias no campo, contribuindo de maneira direta na conservação do cerrado.

Os empresários Edson, Wesley e Ricardo atuam diretamente em um dos grandes desafios do aproveitamento da castanha do baru que é a sua retirada do fruto, pois exige a quebra do endocarpo altamente resistente, o que vem sendo minimizado pela mecanização através de pesquisas e desenvolvimento de equipamentos que aumentam consideravelmente a produtividade da Labraflora, indústria liderada por eles que tem atuação no processo sustentável e economicamente circular do baru no Brasil finalizando na comercialização interna e na exportação para inúmeros países do mundo.

A cadeia produtiva do baru começa com os extrativistas que coletam o fruto e comercializam através de cooperativas e associações ou diretamente nas indústrias. Possui a particularidade de ser uma atividade complementar na renda das famílias, pois a produção do baru é sazonal e cíclica.

Para chegar ao mercado consumidor interno ou externo a Labraflora deve seguir normas de produção de alimentos seguros sendo as BPF- Boas Práticas de Fabricação, uma exigência legal e pré requisito para o sistemas APPCC-Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle e ISO22000, normas que objetivam a produção de alimentos com qualidade e segurança, necessárias principalmente para exportação.

Para crescimento da industrialização, a produção do baru pela Labraflora não é abordada somente sob a perspectiva do extrativismo, os empresários incentivam o plantio racional para recuperação do cerrado e em sistemas de produção como a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), que vem sendo adotada gradativamente no Brasil.

Histórias vencedoras que inspiram

Edson Cunha,

é brasileiro, nascido em Jussara no estado de Goiás. De um humor irreverente, abriga dentro de si um respeito e uma admiração pelo cerrado brasileiro, pelo baru e pelo babaçu que estão transformando um negócio rentável em estilo de vida para a população local e para si mesmo e seus sócios.

“Eu sou de família de imigrantes de Minas Gerais que vieram para cá, para o coração do Cerrado brasileiro nos anos 50. Meus avós vieram naquela época de pau de arara, eles vendiam pequenos sítios em Minas e compravam fazendas grandes aqui no centro. Naquela época também tinham um incentivo do governo federal para estimular o plantio de arroz e o plantio de grãos e de certa forma colonizar essa parte do Cerrado que é o Vale do Araguaia.

Eu conheço todo o cerrado brasileiro e aqui é minha paixão, aqui é onde eu vivo, aqui é onde eu nasci. Experimentar e conhecer o baru é reconhecer o poder que existe nessa castanha e toda a sua cadeia sócio produtiva, o poder de unir as pessoas, o poder de separar as pessoas, o poder de curar pessoas, o poder de transformar as pessoas. Descobrir isso é fantástico! Fui estudar o baru, mergulhei em tudo incluindo artigos científicos, descobri através desse estudo a superioridade do baru em todas as suas formas possíveis de consumo. E agora somos os responsáveis neste pioneirismo do extrativismo à comercialização do baru de forma certificada e sustentável, conservando e enaltecendo o cerrado brasileiro.”

Ricardo Pavan,

é brasileiro, um executivo naturalista com talento comercial nato e uma vasta experiência em importação e exportação. Atua desde 2011 no setor de produtos naturais e orgânicos. Gestor atual na sociedade ao lado de Edson e Wesley, comanda a LabraFlora na sede de Los Angeles/EUA comercializando os produtos para todo o mundo. Ricardo também é responsável pelo relacionamento com investidores internacionais.

“Em 2015 eu já havia ouvido falar da castanha do baru e estava a fim de explorar essa história. Fiz uma viagem para a Chapada dos Veadeiros e lá comi muito Baru, eu, minha mulher e meu filho. Levamos na caçamba do carro 40 cocos, compramos baru no caminho e ficamos comendo o dia inteiro baru com água de coco enquanto visitávamos as cachoeiras. Não parávamos para almoçar para aproveitar o dia. Um sabor delicioso que fez a gente ficar muito bem.

Pensei: ‘ Nossa, esse produto é incrível, e nem mesmo o Brasil conhece. Vou levar este produto para os Estados Unidos’. Fiz uma parceria com o fornecedor local, e no final do ano de 2015 e começo de 2016 a Labra, minha empresa na época, marcava presença na Expo West, a feira da Califórnia, junto com a Organis Brasil, oferecendo a castanha como super alimento. Conheci Wesley e Edson e planejamos naquela época o que hoje estamos concretizando em sociedade, a LabraFlora, união da Labra com a Flora do Cerrado.”

Wesley Machado,

é brasileiro, nascido em Jussara na região de Terra Branca. Um empresário que conhece bem o extrativismo do baru e o reflorestamento do baruzeiro, com uma missão pessoal de recuperar o que o próprio pai desmatou como tradição local.

“Meu avô tinha uma terra em Jussara onde moramos por muito tempo na fazenda. Meu pai trabalhava com desmatamento montando currais e casas, formando fazendas e vendendo madeira. Na época ele andou derrubando muitas árvores de baru e hoje nós fazemos exatamente o contrário, fazemos o plantio e a preservação do baruzeiro.

Conheci o Edson numa pescaria na região e conversando sobre um momento da minha vida em que o baru pelas mãos de minha avó numa receita caseira curou uma bronquite forte que adquiri na infância, ele me fez uma proposta de nos unirmos para trabalhar com baru. Eu conhecia a região todinha e aceitei a proposta.

Ninguém na cidade acreditava no baru e nos viam como loucos. Começamos então a Flora do Cerrado que hoje se uniu a Labra do Ricardo, se tornando a LabraFlora, com um potencial enorme na cadeia circular sustentável do baru, incluindo o nosso grande trabalho com o reflorestamento.”

Produtos da empresa, derivados do baru. Créditos da Imagem: LabraFlora

O fruto baru pode ser comercializado in natura ou beneficiado de maneira manual e artesanal pela extração da castanha, agregando ainda mais valor. Na indústria o fruto in natura é beneficiado e as castanhas comercializadas in natura ou torradas, embaladas e rotuladas. Outros produtos industrializados que utilizam a castanha do baru Labraflora como matéria-prima, que já estão no mercado, são a farinha de baru, o óleo de baru e produtos formulados como molhos, licores, a cachaça do baru, pães, barras de cereais, pastas de baru com cacau e outros ingredientes. Da polpa podem ser encontrados farinhas e chips além de produtos formulados utilizando estes como ingredientes.

O reflorestamento do baruzeiro pelas mãos da labraflora

Com a disseminação do conhecimento e conquista de novos mercados pela Labraflora dentro e fora do país, o corte do baru tem sido reduzido e o seu plantio vem aumentando em função do apelo socioambiental e da importância econômica que começa a representar para a região, similar ao açaí na região norte. Espera-se que em poucos anos ocorra um movimento inverso ao de destruição do cerrado, o que já foi iniciado pelos empresários, em manutenção e replantio desta espécie.

Kátia Bagnarelli 
Redatora e Editora do Jornal O.news
editorial@onews.com.br

Professora Maria Isabel Dantas de Siqueira
PUC Goiás – Engenharia de Alimentos

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